Por que as pessoas fazem bullying? Status, plateia e desculpas: o que o agressor ganha

Quem machuca alguém de forma repetida é o responsável pelo que faz. Isso não está em discussão.

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Dizer que é "mau-caráter" não explica por que o bullying se repete

Quem machuca alguém de forma repetida é o responsável pelo que faz. Isso não está em discussão.

Mas, se a explicação para por aqui:

"É mau-caráter." "Foi mal-educado." "Não tem empatia."

fica sem resposta uma pergunta: por que o bullying continua em alguns grupos e diminui em outros?

O bullying não vem só da agressividade de uma pessoa. Ele também dá vantagens dentro do grupo:

  • Chamar atenção
  • Ser visto como o engraçado da turma
  • Ser temido, e por isso ser menos contrariado
  • Fazer aliados
  • Evitar ser o próximo alvo
  • Decidir as regras do grupo
  • Mostrar quem manda e quem está por baixo
  • Descarregar, por um momento, a própria insegurança ou o sentimento de ser inferior

Às vezes o bullying é só uma explosão de raiva.

Só que, na maioria dos casos em que ele se repete, fica mais fácil de entender se olharmos assim: a pessoa rebaixa o outro para ajeitar a própria posição no grupo.

Quem faz bullying pode não ser querido, mas ganha fama e poder

Uma meta-análise (um estudo que reúne vários outros) sobre bullying e posição no grupo mostrou que os agressores costumam ser mais populares do que quem não faz bullying. Ao mesmo tempo, eles são mais rejeitados e menos escolhidos por afeto.[2]

Ou seja, quem faz bullying nem sempre é amado.

Mesmo assim, ele pode virar "o popular" ou "o centro das atenções", porque:

  • todo mundo sabe o nome dele
  • o que ele diz tem peso
  • as pessoas reagem ao que ele faz
  • o grupo não consegue ignorá-lo
  • enfrentá-lo parece caro demais

Pouca simpatia, muita influência.

Isso não acontece só na escola. Acontece no trabalho também.

Mesmo sem ser respeitada, uma pessoa ganha espaço no grupo quando os outros pensam:

  • "Se ela se irritar, vai dar problema."
  • "Ela é capaz de travar a reunião."
  • "Ela pode mexer na minha avaliação."
  • "Ela é próxima de quem manda."
  • "Ela consegue humilhar alguém na frente de todos."

A recompensa do bullying não é só "ser amado por todos".

Não ser ignorado, ser temido e decidir quem fica em cima ou embaixo também são recompensas.

Quando a plateia ri, a agressão é reforçada

O bullying não é uma cena só com dois personagens, o agressor e a vítima.

Em volta, tem gente que:

  • ataca junto
  • ri
  • espalha a história
  • assiste achando graça
  • se afasta do alvo
  • quer parar tudo, mas fica calada
  • defende a vítima abertamente

O agressor tira sarro de alguém e o grupo ri.

Nesse instante, ele ganha uma recompensa.

"Assim eu domino o ambiente." "Se eu rebaixo essa pessoa, eu subo." "Os outros aprovam." "Posso fazer de novo."

É assim que ele aprende a repetir.

Já num grupo em que ninguém ri, o assunto muda, o alvo é tratado normalmente e quem coordena para a situação na hora, a agressão rende menos.

Para diminuir o bullying, não basta olhar para o caráter do agressor. É preciso cortar a recompensa que a plateia está dando.

Rebaixar uma pessoa une até quem mal se conhece

Criar confiança do zero dá trabalho.

É preciso conhecer o jeito de pensar do outro, ajudar, perdoar erros e dar tempo ao tempo.

Criar um inimigo em comum é muito mais fácil.

"Aquela pessoa é esquisita, né?" "Só ela não entende." "Por causa dela, nada anda." "Ela não sabe ler o clima."

Quando uma pessoa é colocada lá embaixo, todo o resto se junta como "o nosso lado".

Isso não é amizade.

É uma união de ocasião, feita pela exclusão.

Quem se sente inseguro no grupo pode tentar comprar segurança ficando do lado de quem ataca, e não do lado do alvo.

Por isso, nem todo mundo que entra no bullying é tão agressivo quanto quem lidera.

Há quem ria só para não ser o próximo.

Mesmo assim, o efeito sobre o alvo continua o mesmo. E quem sustenta a agressão continua com sua parte da responsabilidade.

Muita gente muda o significado do que fez para dizer "eu não fiz bullying"

A maioria das pessoas não consegue viver se achando uma pessoa má.

Então, depois de machucar alguém, elas reescrevem o que aconteceu para manter uma boa imagem de si:

  • "Era brincadeira."
  • "Ele também riu."
  • "Quem é zoado tem sua parte de culpa."
  • "Eu só estava ensinando a ele a se enturmar."
  • "Ele trabalha mal, não tinha outro jeito."
  • "Foi para o bem dele."
  • "Todo mundo pensa igual."
  • "Eu mesmo nem falei nada."
  • "Era preciso, como orientação."

Na psicologia, esse processo tem nome: desengajamento moral. A pessoa se afasta por um momento das próprias regras de certo e errado e arranja desculpas para o que fez.

Uma meta-análise com crianças e adolescentes encontrou uma relação positiva, de força média, entre desengajamento moral e fazer bullying.[3] Outra meta-análise, sobre comportamento agressivo em geral, encontrou uma relação parecida.[7]

O ponto importante é que, em muitos casos, o agressor não se vê como alguém que está fazendo algo errado.

Na cabeça dele, a história é outra:

"Estou mantendo a ordem." "Estou ensinando o que é certo." "Estou animando o ambiente." "Estou lidando com uma pessoa problemática."

Por isso, ouvir "eu não tive a intenção" não prova que está tudo seguro.

O que se deve olhar não é só a intenção. É se o comportamento se repete, se há diferença de poder, que efeito tem sobre a outra pessoa e se existe chance real de corrigir.

Não é só quem tem pouca empatia que faz bullying

Existe relação entre fazer bullying e ter menos empatia.

Mas isso não quer dizer que só faz bullying quem "não entende nada do que o outro sente".

Alguns agressores leem muito bem a reação dos outros.

Eles sabem:

  • o que dizer para magoar
  • na frente de quem a fala pega mais forte
  • até onde dá para ir sem ser punido
  • quem vai rir e quem vai ficar quieto
  • que palavras fazem a agressão parecer "orientação"

Esse tipo de pessoa não deixa de perceber sentimentos.

Ela percebe, mas usa isso para controlar o outro, não para protegê-lo.

Então ser inteligente, tirar boas notas, falar bem ou ter muita vivência não garante que alguém não faça bullying.

Às vezes, quanto mais habilidade, mais sofisticada fica a agressão.

Ter sofrido bullying pode levar a agredir, mas não serve de desculpa

Quem foi vítima às vezes:

  • ataca antes de ser atacado
  • passa para o lado mais forte
  • passa a achar normal esse tipo de tratamento
  • faz o mesmo com alguém mais fraco

Uma meta-análise longitudinal (que acompanha as mesmas pessoas ao longo do tempo) publicada em 2026, com 83 estudos e cerca de 124 mil participantes, apontou uma relação nos dois sentidos: fazer bullying prevê ser vítima mais tarde, e ser vítima também prevê fazer bullying mais tarde.[9]

Mas isso não significa que:

"Quem sofre bullying vira agressor." "Quem passou por algo difícil no passado pode agredir."

A maioria das vítimas não faz bullying.

O passado é um fator de risco. Ele não apaga a responsabilidade.

O bullying continua porque "compensa" e ninguém corta esse ganho

Juntando tudo, os grupos em que o bullying continua costumam ter esta estrutura:

  1. Ao rebaixar alguém, o agressor sobe de status
  2. A plateia ri, presta atenção e acompanha
  3. O alvo tem dificuldade para reagir
  4. Quem coordena não vê, não interrompe ou trata como bobagem
  5. O agressor se justifica dizendo que era "brincadeira", "orientação" ou "para o bem dele"
  6. A imagem que se criou do alvo serve de motivo para o próximo ataque
  7. O medo ou os erros do alvo viram "prova" de que ele era mesmo o problema

Nesse ciclo, o bullying dá resultado para o agressor.

Por isso, uma aula de moral sozinha dificilmente resolve.

O que é preciso fazer:

  • Cortar as recompensas, como o riso e a concordância
  • Não deixar o alvo isolado
  • Fazer quem coordena agir cedo
  • Registrar o que aconteceu e o efeito que teve
  • Proteger quem denuncia de qualquer prejuízo
  • Criar outros caminhos para ganhar status
  • Trocar o "só estou zoando" vago por regras claras sobre o que é permitido e o que não é

Uma revisão da Campbell Collaboration sobre programas de prevenção ao bullying nas escolas mostrou que eles reduzem a agressão em cerca de 18% a 19% e a vitimização em cerca de 15% a 16%.[4]

Os resultados variam, mas a conclusão é clara.

Bullying não é algo da natureza humana contra o qual nada adianta. Se mudamos as recompensas do grupo e o jeito de intervir, ele diminui.

Um passo além: Resposta curta: casar não vem com a felicidade instalada de fábrica

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