Por que comprar menos coisas compensa? Vendi duas caixas de bugigangas por 500 ienes e entendi o custo escondido de se desfazer delas

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Por que comprar menos coisas compensa? Vendi duas caixas de bugigangas por 500 ienes e entendi o custo escondido de se desfazer delas
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Antes de me mudar, juntei um monte de coisinhas e levei numa loja que compra itens usados.

Duas caixas de papelão.

A oferta: 500 ienes.

Só deu para rir. Coisas que custaram algumas centenas ou milhares de ienes cada uma, às vezes mais, passaram juntas pela avaliação e saíram por 500 ienes as duas caixas.

Aquilo já não era "será que vendi bem?". Boa parte foi um recolhimento de tralha com o nome de "compra".

Mas uma coisa fez sentido na hora.

Mais do que ter recebido só 500 ienes, o que pesou foi ver duas caixas sumirem de uma vez.

Resumindo: coisinhas são baratas na hora de comprar e caras na hora de se livrar delas. Neste texto eu falo desse custo real e de por que meu dinheiro foi indo para experiências, menos dor de cabeça, coisas que duram e liberdade no futuro.

1. Duas caixas por 500 ienes: a melhor aula de consumo que já tive

Coisinhas entram em casa sem esforço nenhum.

"Parece útil." "Achei divertido." "É baratinho, por que não?"

Mas na hora de tirar de casa, tudo fica pesado de repente.

Você precisa ver se ainda usa. Decidir se fica. Colocar na caixa. Carregar. Esperar a avaliação. E, se ninguém quiser, descobrir como jogar fora.

Uma coisa só não é nada. Mas quando são dezenas ou centenas, as compras fáceis do passado voltam como tarefas chatas no futuro.

E, no fim, o preço de tudo foi 500 ienes.

Foi como se o mundo dissesse: "Sua coleção de coisinhas, na saída, é basicamente papelão".

Claro que o valor de algo não se mede só pelo preço de revenda. Se foi útil enquanto você usou, esse valor você já recebeu.

Mesmo assim, ver tudo ganhar uma etiqueta de preço só na saída marca bastante.

Você lembra quanto pagou. Esquece quanto vai valer quando for se desfazer.

Depois de ver essa diferença uma vez, fica bem mais fácil pisar no freio na próxima compra.

2. 500 ienes não é pouco se você pensar em "duas caixas a menos, serviço incluso"

Se eu tivesse anunciado cada item separado num app de usados, talvez ganhasse mais.

Só que isso significa tirar foto, escrever anúncio, baixar preço, responder perguntas, embalar, enviar e controlar o que não vende.

Logo antes de uma mudança, muitas vezes o que você quer não é o melhor preço, e sim menos coisa para carregar e menos pendências.

Olhando assim, duas caixas por 500 ienes não é só "ganhei apenas 500 ienes".

Sumiram duas caixas de coisas e ainda vieram 500 ienes de brinde.

Desse jeito, faz bastante sentido.

O importante é não ficar obcecado em tirar o máximo de dinheiro.

O que dá para vender bem, separe e venda à parte. O que vale pouco e dá mais trabalho do que retorno, desapegue de uma vez.

Na real, um SIXPAD (um aparelho de eletroestimulação para os músculos) que já estava indo para a pilha do "desapego" eu resgatei e guardei.

Não coloque tudo na mesma caixa.

Salve só o que tem valor e deixe o resto ir junto com a dor de cabeça.

Separar assim funciona melhor para a vida como um todo.

3. Coisinhas têm um "custo de saída" que não aparece na etiqueta

O preço que você paga no caixa é só a entrada.

Quando você tem uma coisa, surgem pequenas tarefas:

  • arrumar um lugar para ela
  • tirar do lugar na hora da faxina
  • ver se não quebrou
  • embalar a cada mudança
  • decidir se fica ou vai embora
  • pesquisar quanto vale, se for vender
  • descobrir como separar ou quem recolhe, se for jogar fora

Como nunca chega boleto disso, é fácil não perceber.

Mas isso consome tempo e atenção.

Quando entra mais uma coisinha em casa, você quase não sente. Por isso é tão fácil comprar.

Só que na mudança essa conta invisível chega toda de uma vez.

Ter coisas tem um rabo bem comprido.

A empolgação do dia da compra passa rápido. A coisa continua na sua casa.

Quando você percebe esse "rabo comprido", fica difícil dizer que o mais barato sempre compensa.

4. "Acho que vou parar de comprar coisinhas" não é exagero, é aprendizado

Logo depois de transformar duas caixas em 500 ienes, é natural pensar "chega de coisinhas".

Não é que eu tenha virado minimalista de uma hora para outra. É mais que a saída entrou na conta das minhas compras.

Antes, eu decidia mais ou menos assim:

vontade de ter − preço

Agora entra também:

o trabalho de guardar, mudar, se desfazer e decidir

Aí o "vou comprar porque é barato" perde força.

Mesmo um enfeite de 500 ienes não é uma compra de só 500 ienes se, seis meses depois, ele atrapalha, na próxima mudança precisa ir para a caixa e no fim você tem que pesquisar como descartar.

Já o que você usa todo dia se justifica mesmo sendo caro.

Se você usa uma ferramenta de 10.000 ienes por 1000 dias, fica fácil explicar por que ela merece continuar na sua casa.

Fica mais claro avaliar algo por quantas vezes ele vai aparecer de verdade no seu dia a dia, e não pela empolgação na hora de pagar.

5. Aí o dinheiro vai para experiências, menos dor de cabeça, coisas que duram e liberdade

Quando acumular coisas perde a graça, fica bem claro onde vale a pena gastar.

Primeiro, experiências.

Viagens, comidas, lugares legais, eventos. Depois não vão para nenhuma caixa. Ficam as lembranças e as histórias, sem ocupar espaço.

Segundo, gastos que tiram dor de cabeça.

Entrega em casa, diarista, chegar mais rápido aos lugares, serviço de retirada do que você não usa mais. É dinheiro que compra de volta seu tempo e sua atenção.

Terceiro, coisas que você usa por muito tempo.

Móveis, eletrodomésticos, aparelhos e ferramentas de trabalho que você usa todo dia. Você usa muito, e eles continuam se pagando bem depois da compra.

Quarto, liberdade no futuro.

Guardar como poupança ou investimento, para ter espaço de escolher depois como trabalhar, onde morar e como usar seu tempo.

O objetivo não é parar de comprar coisas.

É transformar o dinheiro em formas que não prendam o seu eu do futuro.

6. As pesquisas também apoiam gastar com experiências e "comprar tempo"

Desde os anos 2000 vêm se acumulando estudos mostrando que muita gente diz ter ficado mais feliz gastando com experiências do que com objetos.[1][2]

Um dos motivos: experiências se ligam mais facilmente aos seus relacionamentos e ao seu jeito de ser, e é mais difícil transformá-las numa simples comparação com os outros.[2]

Também há pesquisas sobre gastar dinheiro para diminuir o tempo com faxina, compras, cozinha e outras tarefas. Num estudo que incluiu mais de 6000 pessoas em 4 países, quem gasta assim tende a estar mais satisfeito com a vida. E num experimento, as pessoas ficaram de melhor humor no fim de semana em que gastaram para economizar tempo do que no fim de semana em que compraram um objeto.[3]

Ou seja,

recuperar tempo em vez de acumular coisas

não é simples preguiça.

É um jeito de gastar com ligação suficiente com a felicidade para ser estudado a sério.

Além disso, um estudo pequeno olhou a relação entre descrever a casa como "bagunçada" ou "inacabada" e alguns indicadores de humor e estresse.[4]

Isso não quer dizer que "menos coisas sempre deixam você feliz".

Mas dá para entender que acumular coisas não ocupa só espaço: também pede atenção e cuidado.

7. Antes de comprar, olhe um pouco além do "eu quero?"

Não precisa proibir de vez as coisinhas.

Em vez disso, estas perguntas funcionam muito bem:

Vou continuar usando daqui a seis meses?

Eu ia querer embalar isso com as minhas mãos e levar na próxima mudança?

Se eu tivesse que me desfazer disso amanhã, pagaria esse preço hoje?

Já não tenho alguma coisa que faz a mesma função?

Isso aumenta as coisas em casa ou diminui uma dor de cabeça?

A mais forte é:

"Eu levaria isso na próxima mudança?"

Na loja, "que fofo" e "que prático" ganham fácil. Mas quando você se imagina enfiando aquilo numa caixa de mudança, de repente perde muito do encanto.

É como chamar a vistoria de entrega do apartamento do futuro para a tela de pagamento.

É um filtro bem chato, mas funciona.

8. Mas também não precisa virar um campeonato de quem tem menos coisas

Ir para o outro extremo e tratar qualquer compra como derrota também não faz sentido.

A cadeira, a roupa de cama, os eletrodomésticos, os aparelhos e as coisas do seu hobby que você usa todo dia dão muito retorno, mesmo continuando ali como objetos.

Coisinhas também valem a pena se deixam você feliz toda vez que olha, se você realmente usa ou se colecionar é o seu hobby.

O problema não é ser um objeto.

A questão é se ele continua fazendo parte da sua vida depois da compra.

É isso que importa.

O que você não usa vai, aos poucos, deixando de ser "minhas coisas" para virar "algo que vou ter que descartar um dia".

Já o que você usa por anos se paga várias vezes antes de o custo de saída aparecer.

Então a meta não é uma casa vazia.

É chegar mais perto de uma casa onde só fica o que você quer manter.

9. Conclusão: talvez com esses 500 ienes eu não tenha vendido coisas, mas comprado um novo jeito de comprar

Duas caixas, 500 ienes.

Olhando só o dinheiro, é bem pouco.

Mas, se você pensar que antes da mudança sumiram duas caixas de volume e um monte de decisões pendentes, o sentido muda.

E se essa única vez me deixou o hábito de "olhar até a saída, não só o preço", aprendi muito mais do que 500 ienes.

Coisinhas só parecem baratas na hora da compra.

Na verdade, desde que entram em casa elas já reservam pequenas tarefas: guardar, limpar, mudar, decidir e descartar.

Por isso, aos poucos, o jeito de gastar muda.

De acumular coisas, para viver experiências.

De carregar dor de cabeça, para se livrar dela.

Do que você usa por pouco tempo, para o que você usa por anos.

E o dinheiro que você não precisa agora, para a sua liberdade no futuro.

No dia em que duas caixas viraram 500 ienes, minha carteira ganhou só 500 ienes.

Mas provavelmente a quantidade de coisinhas que vai entrar na minha casa daqui para frente caiu bastante.

Talvez essa tenha sido a avaliação mais valiosa de todas.


  1. Van Boven, L., & Gilovich, T. (2003). To Do or to Have? That Is the Question. Journal of Personality and Social Psychology, 85(6), 1193–1202 doi.org
  2. Gilovich, T., & Gallo, I. (2020). Consumers’ pursuit of material and experiential purchases: A review. Consumer Psychology Review doi.org
  3. Whillans, A. V., Dunn, E. W., Smeets, P., Bekkers, R., & Norton, M. I. (2017). Buying time promotes happiness. Proceedings of the National Academy of Sciences, 114(32), 8523–8527 doi.org
  4. Saxbe, D. E., & Repetti, R. (2010). No Place Like Home: Home Tours Correlate With Daily Patterns of Mood and Cortisol. Personality and Social Psychology Bulletin, 36(1), 71–81 doi.org

Livros para se aprofundar nesta pesquisa

  • Happy Money: The Science of Happier Spending (edição em inglês)

    Elizabeth Dunn, Michael Norton / Simon & Schuster / 2013

    Elizabeth Dunn e Michael Norton, coautores do estudo citado acima sobre comprar tempo e felicidade, resumem pesquisas sobre gastos que tendem a trazer mais satisfação, como experiências e tempo.

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